quinta-feira, 26 de abril de 2012

Viva o Crime Brasileiro



"O Brasil nunca foi tão rico em toda a sua história quanto agora. A criminalidade nunca foi tão grave. É uma relação de causa e efeito? Pode ser. Não se tem ainda, no entanto, como demonstrar o nexo de causalidade. Mas pode-se chegar a uma conclusão surpreendente — e inédita: o crime se estratificou no Brasil.

O crime dito de colarinho branco se sofisticou na mesma medida em que passou a movimentar valores em dinheiro e símbolos de poder que colocam o Brasil no topo do ranking nesse segmento. Certamente numa posição mais avançada do que o 6º lugar em que o país está dentre os PIBs mundiais. O recorde anterior era o 8º lugar, conquistado na década de 1970, com o "milagre econômico" do regime militar. Depois o Brasil regrediu quatro posições, até recomeçar a subir, superando seis países, depois do Plano Real.

Os criminosos de colarinho branco não têm mais por hábito matar. Eles liquidam moralmente, ou financeiramente, graças às armas que a mais alta tecnologia lhes fornece. Podem ter que usar o recurso extremo, mas, quase sempre, só no desespero. Litigam a partir de suas mesas, diante de um computador, com assessorias visíveis e invisíveis (estas, as mais eficientes, principalmente as não assumidas ou não declaradas).

O exemplo mais recente e acabado desse modo de proceder é o do suposto bicheiro Carlinhos Cachoeira. Ele não se enquadra no modelo de um Anísio Abrahão ou Castor de Andrade. Conta com senadores, deputados federais, governadores, empresários, jornalistas. Está conectado a empresas muito maiores, dentro e fora do país. Mesmo alvejado por disparos verbais e ameaças materiais, se mantém calmo. Sua munição é tão vasta quanto imprevisível. Seu arquivo eletrônico é seu seguro de vida. Embora sem garantia certa ou cobertura definida.

Mas há um crime de rua, violento e sangrento, como "nunca antes", para usar o bordão do ex-presidente Lula, que muito contribuiu para esse "aperfeiçoamento" maligno com seu populismo de resultados, mais eficiente e mais inescrupuloso do que o populismo amador e romântico dos políticos da República de 1946. O do líder sindical é, et pour cause, profissional. Sublimemente (ou subliminarmente) mafioso. O Brasil dos nossos dias é uma recriação monumental da Chicago do entre guerras mundiais do século XX.

Vem do Maranhão o mais recente exemplo dessa criminalidade. Na noite do dia 23 um homem desceu de uma moto na qual era o carona, com a cobertura de uma segunda moto. Caminhou calmamente até um dos restaurantes da frequentada e admirada orla litorânea de São Luiz do Maranhão, ponto turístico nacional. Foi até uma das mesas, tirou uma pistola calibre 40, preferência policial por sua potência e eficiência. Mirou no ocupante de uma das mesas, que estraçalhava caranguejos, como costumam noticiar as colunas sociais. Fez seis disparos com direção certa e objetivo definido: matar sem piedade, tripudiar sobre a morte. Duas balas atingiram a cabeça da vítima. Outras duas, o pescoço. E mais duas a região do coração. Sangue espirrou, carregado de massa encefálica, pele e osso. Os tiros não foram apenas para matar: a morte devia servir de mensagem a quem interessar pudesse.

O assassino olhou em torno, disse palavras ameaçadoras para o garçom, que testemunhara estupefato o crime, guardou a arma e saiu com a mesma calma da chegada. Não escondeu o rosto nem teve pressa em fugir. Subiu na moto e sumiu, sempre com a cobertura do segundo veículo (inspeções constantes a motocicletas devia ser uma estratégia sagrada no Brasil). Não tinha receio em ser identificado nem, talvez, preso. Se for preso, acredita, será por pouco tempo. Tem cobertura — e da grossa.

A vítima, Décio Sá, tinha 42 anos. Era jornalista havia muito tempo. Desde 2006 escrevia um dos muitos blogs criados por maranhenses que não têm onde se manifestar, querem se informar e informar os outros. É a alternativa à grande imprensa, dominada pelos grupos políticos e empresariais que mandam no Maranhão, o Estado mais pobre (alguma relação com o fato de ser, geograficamente, Meio Norte com o Piauí, metade Amazônia e metade Nordeste?).

Décio criou a imagem de jornalista investigativo, eficiente, audacioso e corajoso, graças ao blog. Mas trabalhava havia tempo suficiente no maior grupo de comunicação do Estado. Sob essas outras vestes, suscitava dúvidas quanto à sua independência e autonomia. Ele era um repórter político especial do Sistema Mirante de Comunicação, afiliado à Rede Globo de Televisão. e, em particular, do jornal O Estado do Maranhão, líder dos impressos maranhenses.

Esses veículos são dirigidos de perto pelo maior político do Maranhão, o ex-presidente da república e presidente do Senado, José Sarney. Nada de importante sai nos órgãos de comunicação do também ex-governador sem sua aprovação. O noticiário político, então, é criação sua. Nem sempre para reproduzir a verdade. Às vezes, também, para mandar recados.

As oligarquias no Maranhão não costumam aparecer na literatura que Sarney, igualmente imortal da Academia Brasileira de Letras, costuma cometer. Nem é preciso: a ficção do beletrista senador é acanhada demais para dar conta de realidade de tal magnitude. Tão impressionante que dispensa pitadas de invenção. Basta olhar com olhos de ver e mãos de reproduzir a cena com a fidelidade temerária de um herói. Talvez logo depois morto.

Décio Sá falava ao celular, em frente aos caranguejos cozidos, seu prato de resistência. Quando recebeu os tiros, o jornalista falava com Aristides Milhomem, mais conhecido por Tatá, vice-prefeito do município de Barra do Corda e irmão de Carlos Alberto Milhomem, deputado estadual. Sem conseguir restabelecer a ligação, Tatá acionou Fábio Câmara, suplente de senador e amigo de Décio, que estivera em contato com outro amigo, um personal trainer, executado pouco antes, no mesmo dia, num ponto mais distante da faixa valorizada da capital maranhense. E que também iria para o bar Estrela do Mar para a caranguejada.

A última postagem de Décio no seu blog foi sobre o assassinato de Miguel Pereira de Araújo, o Miguelzinho. Ele foi morto em 1997 e o julgamento seria realizado em Barra do Corda, que forma com Presidente Dutra e Grajaú, o principal reduto de pistoleiros no Maranhão.

O problema é que das 25 pessoas sorteadas para integrar o corpo de jurados, que teria sete membros, 25 eram ligadas a Manoel Mariano de Souza. Além de ser prefeito municipal, ele é pai do empresário Pedro Teles, acusado de ser o mandante do crime. Seria represália contra o alegado invasor de suas terras. Pedro é irmão do deputado estadual Rego Teles, do PV. O advogado Leandro Sampaio Peixoto, defensor de Miguelzinho, pediu o desaforamento do júri para São Luiz no mesmo dia da morte de Décio, a quem forneceu cópía da petição. Nela, previu que o julgamento, se realizado em Barra do Corda, terá desfecho viciado.

Ele sabe o que diz: é filho do ex-prefeito Avelar Sampaio, do PTB. Foi Avelar, quando prefeito, quem cedeu os pistoleiros Moraes Alexandre e Raimundo Pereira para proteger Manoel Mariano. Na época os dois eram amigos. Rompidos, se tornaram inimigos. Manoel interrompeu a sucessão no poder da família do seu (ex) amigo.

Para as oligarquias que comandam o interior do Brasil, isso é crime. A ser quitado com outro crime, sem os refinamentos do pessoal do andar de cima, que circula de colarinho branco por esses ambientes. O encadeamento é óbvio. O problema é segui-lo.

Um leitor, que usou um nome falso (Madureira), fez o único comentário, postado momentos antes da consumação do assassinato do blogueiro. Concluiu: "tá na cara que é jogo de cartas marcadas. precisa mais detalhes que esses?? creio que não !!"

Apesar do acesso constante ao blog, ainda mais depois do crime, ninguém voltou a se manifestar. O silêncio é a regra de ouro desses acontecimentos, cada vez mais frequentes no Brasil oculto. Quem fala muito morre com a boca cheia de formiga, ameaça uma tirada de humor negro. Muito negro."

quinta-feira, 29 de março de 2012

A Lei do Mais Forte?

Infelizmente, creio que essa história não está longe do fim. E um fim nada feliz, diga-se de passagem.
Pelo que vejo desse mundo moderno, as diferenças estão cada vez mais fortes e evidentes, mesmo dentro da quantidade de apelos que vemos e ouvimos para que sejamos todos iguais.

De fato somos iguais!

Mas nem todos aceitam e não querem se igualar com os considerados inferiores.
E em se tratando de se achar superior, de ver o outro como inferior, de não querer ser igual... vemos que histórias como essas continuarão a acontecer.

Quando falamos de animais, seres ditos irracionais, vemos o forte se sobrepondo na lei da natureza de que os fortes sobrevivem.
Porém na raça humana, a raça racional, que pensa (não parece!) acha que vive a mesma lei da selva e tenta (e por vezes consegue) aniquilar seu semelhante por se achar melhor que ele. E o que o mostrou melhor? A força? Não!
Um se acha melhor que o outro porque acredita em um Deus diferente, porque não acredita nas mesmas imagens, porque simplesmente não gosta da cor do outro, não gosta da sexualidade do outro. Motivos pífios, que não são distinguidos pela lei da natureza. A Natureza não vê isso, mas o ser humano vê. E mata por isso.

Mata porque a cor branca é superior e negro merece morrer.
Mata porque é islâmico e o judeu merece morrer.
Mata porque é heterossexual e o homossexual merece morrer.
E o contrário também acontece aos montes.

Por que?
Simplesmente porque nascemos egoístas o suficiente para não olharmos pro lado e reconhecermos que o outro é, de fato, como nós e merece respeito assim como nós.
Pedimos igualdade e justiça, mas, por vezes, as restringimos ao nosso "povo", àqueles que achamos ser como nós... os outros? Os outros que morrão!


"Na última semana, os jornais, a Internet, a TV e os cafés se entupiram de notícia e comentários sobre um matador francês que agiu nas cidades de Toulouse e Montauban. O homem matou outros homens durante semanas e as opiniões francesas insistem no nexo entre a patologia do sujeito e os desentendimentos étnicos que parecem crescer no continente. Não se sabe bem se crescem ou se apenas se acirram e radicalizam. O assassino, em todo caso, era francês, mas de origem argelina. As vítimas eram judeus, mas nem todas.

Enquando as confusões se multiplicam, a Europa, esta pobre mulher indefesa , evoca suas exclusividades ancestrais para livrar-se do "mal" estrangeiro. Na França, a quatro domingos, a filha dileta da extrema direita nacional (Marine le Pen), lançou-se oficialmente à corrida presidencial dizendo aos seus simpatizantes que os imigrantes devem ter "amor pelo país que os acolhe". A frase foi dita em Marselha, porto histórico de conexão entre a França e o Norte da África. Terá sido por acaso? Um socialista (François Hollande) lidera o pleito francês, não se sabe até quando, nem tampouco quais serão os escândalos subsequentes. O terceiro participante da gara é o já presidente do país (Nicolas Sarkozy), famoso por ter se referido aos suburbanos parisienses como "escória", quando ainda Ministro do Interior.

No púlpito armado em Marselha, a mocinha da direita brada contra os imigrantes que não falam o francês corretamente. Ela é loira e tem olhos azuis, assim como o norueguês que apodrece em uma cadeia de Oslo depois de pregar contra a miscigenação, explodir uma bomba e atirar contra seus conterrâneos. Esse último não era imigrante."

Fonte: Zoropa - Yahoo

quarta-feira, 28 de março de 2012

Um poema nada convencional!



"Hoje faz 2 anos que conheci alguém especial.
Melhor que isso, conheci alguém que me faz me sentir especial.
Hoje faz 2 anos que conheci um amor puro.
Um amor completamente diferente do que eu acreditava ser amor.
Um amor que se sustenta, às vezes, por si só.
Um amor que cuida, apoia, briga, chora.
Um amor que sorri, implica, sente, aperta.


Hoje faz 2 anos que eu acreditei ser possível.
Acreditei que não há nada que esse amor não cure. E de fato, não há.
Há 2 anos eu fui com medo, hoje não há entrega maior.
Uma entrega de carinho, de cumplicidade, de mimo.
Uma entrega de lealdade, fidelidade, informalidade.
Sim, porque não há nada mais formal e informal que o amor.
Esse amor, que só aumenta e só melhora.

Hoje faz 2 anos que a felicidade sorriu pra mim.
E agora eu retribuo com o sorriso mais sincero que me cabe.
Aquele sorriso que só quem ama entende, que só quem ama sabe.
Aquele sorriso simples por saber que do outro lado tem alguém que sorri por você.
Então hoje eu sorrio, de forma simples e sincera.
Pra que todos saibam o quão feliz sou por ter alguém como você."


Dedico esse poema ao namorado lindo que faz esse sorriso brotar a cada dia!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Milícia: poder paralelo à base da violência e apoio do Estado

Texto bem redigido e atinge bem as eleições de 2012. Com a milícia infiltrada no poder do Estado ficará bem evidente o quanto ela influenciará para continuar no poder. É trágico ver o poder corruptível e associado à esse tipo de violência que temos. É de se lamentar profundamente que pessoas, sejam elas quem forem, aplaudam criminosos, que utilizam de violência cruel para conseguir o que querem, que monopolizam serviços a fim de lucrar, que matam, que dominam com força física e verbal.

O que dizer desses eleitores que aplaudem?
O que dizer desse governo corrupto e associado à eles que temos?

Muitas discussões, nenhuma solução e esse poder paralelo vai dominando cada vez mais. Até quando assistiremos à isso sem fazer nada? Até quando veremos aplausos para pessoas desse nível?


Milícias ganham poder à sombra das UPPs 

Especialistas dizem que prisões não bastam e advertem para risco de, nas eleições, milicianos ampliarem poder à sombra do sucesso das UPPs.

À exceção dos agentes da Polícia Federal que escoltavam os presos, ninguém se importou com o pequeno grupo que esperava os irmãos Natalino e Jerônimo Guimarães, o “Jerominho”, na porta do 4o- Tribunal do Juri, dias antes do carnaval. Aquelas pessoas não estavam ali para protestar em nome das vítimas da Liga da Justiça, a maior milícia da Zona Oeste, liderada pela dupla. A claque queria, sim, aplaudir, render homenagens, celebrar a absolvição dos réus, acusados de tentativa de homicídio, e que continuam presos por outros crimes. Só não foram além porque a Polícia impediu a aproximação. 

No dia 7 de outubro, data das próximas eleições municipais, o quadro será diferente. Não haverá barreira policial ou qualquer impedimento para a festa do crime. Contabilizadas as últimas vitórias — como a a devolução do mandato de vereadora a Carmen Glória Guinâncio Teixeira, a Carminha (filha de Jerominho) —, a Liga da Justiça poderá consolidar seu poder na Zona Oeste pela força das urnas.

Freixo: o mal dos ‘centros sociais’.
De todas as UPPs instaladas até agora, a única que ocupou espaços antes dominados por milícias foi a Batan, em Realengo, onde repórteres do Dia foram torturados em 2008. À maneira do tráfico, mas com um dos pés carimbados no coração do estado, as milícias espalham terror pelas comunidades menos favorecidas, sobretudo as afastadas do eixo formado pela Zona Sul e pelas áreas estratégicas para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Prisões têm sido feitas: 600, a maioria a partir da CPI das milícias.

O professor Luiz Cesar Queiróz, do Observatório de Cidades (Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia), sustenta, contudo, que a detenção de milicianos não desarticulou seu poder, exercido principalmente pelos centros sociais, que permanecem abertos quando seus fundadores são presos: — Por que os representantes não se mobilizam em termos de políticas metropolitanas para as áreas de transporte, educação, meio ambiente, saúde etc? Porque são representantes de seus currais, restritos a bairros. Não se interessam pelo que ocorre fora deles. Políticas metropolitanas são para todos, mas não pertencem a ninguém. Os milicianos estão dentro desse contexto. No exercício do mandato, seus representantes são localistas, paroquialistas. Esta forma de crime se mantém pelo controle político. As milícias precisam de representação para fortalecer o controle social que já exercem. Se, de um lado, se impõem pelo terror, do outro adotam o velho modelo udenista. 

Artífice da CPI, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) concorda que as prisões não arranham o esquema eleitoral dos grupos criminosos. O domínio territorial continua no pico. — Tenho informações de que muitos destes centros sociais identificados como de milicianos mantêm convênio com a prefeitura. O Deco tem centro social. Girão também. Fausto Alves é outro. Na CPI, propus que o licenciamento de vans fosse feito de forma individual, e não por cooperativas, outro setor claramente vinculado aos milicianos. Mas nada adiantou. O esquema continua. 

Ex-secretário de segurança, autor dos livros “A Elite da Tropa”, I e II, e porta-voz da tese de que as milícias tomaram conta da cidade com poder maior que o do tráfico, o antropólogo Luiz Eduardo Soares vê a Zona Oeste como uma espécie de área de sombra da consciência carioca, daí o silêncio que costuma cercar o que ali ocorre. — O assunto “milícias” está ausente como estivera por muitos anos e permanecerá por longos períodos, mesmo depois de tornar-se foco da atenção midiática, quando profissionais de imprensa quase foram mortos. A tendência é ficar sepultado no limbo da atenção pública. Para as elites, as milícias mal existem, assim como a Zona Oeste. São personagens fantásticos, de outro planeta. A problemática emerge apenas nas crises, para logo hibernar. Discutir em profundidade tudo isso, fora da crise (atitude que a evitaria) não se faz, no Brasil.

A síndrome do 'gato orçamentário'.

O secretário de segurança, José Mariano Beltrame, discorda. — O problema com a milícia não é de vontade política. É de velocidade. A polícia do Rio tem mais de 40 anos no combate ao tráfico, e apenas 15 no combate aos milicianos. Por isso é tão fácil identificar e prender um traficante. No caso das milícias, não se desenvolveu uma expertise. É difícil identificar um miliciano. É um quebra-cabeças. Não existe o “crime de milícia” no Brasil. Não há tipificação. 

Estive com o presidente do Senado, José Sarney, semanas atrás, levando uma proposta de alteração do código penal que contemple esta modalidade. Mesmo assim, ao tirar a Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas) do âmbito da Polícia Civil e pô-la sob a Secretaria, temos a delegacia mais especializada do país. Não houvesse vontade política, não teríamos participado, com o deputado Freixo, da formação da CPI das milícias e prendido centenas de milicianos, nem teríamos posto atrás das grades cachorros grandes como Jerônimo e Natalino. 

Fazendo questão de prestar loas ao trabalho da Draco, Luiz Eduardo volta à carga com o argumento de que o problema é bem mais profundo. Na sua ótica, as polícias, tais como estão organizadas, são fábricas de desordem, descontrole e ingovernabilidade. São refratárias à gestão e à prestação de contas à sociedade. Que, por sua vez, precisa cobrar que a UPP deixe de ser programa para virar política sistemática e sustentável e se estender às áreas de influência das milícias, que hoje controlam quase uma centena de comunidades. — O governo do Estado tem que fazer o que até agora recusou: meter a mão no vespeiro policial não só para prender indivíduos, mas para promover uma reorganização institucional e, na sequência, pressionar o Congresso por mudanças no artigo 144. 

As milícias continuarão livres e soltas enquanto não mudarmos radicalmente nossas polícias e eliminarmos a fonte mais vigorosa de sua reprodução: o gato orçamentário. Como o orçamento para a segurança pública é irreal e os salários pagos, insuficientes, não se reprime o bico do policial na segurança privada, apesar de sua ilegalidade, para evitar que a demanda salarial provoque o colapso das contas. A ilegalidade é que permite a vigência de padrões salariais tão baixos, e viabiliza a estabilidade. Em outras palavras: na tese de Soares, a segurança privada informal e ilegal “financia” o orçamento. Ao se tolerar a ilegalidade “legítima”, bem intencionada, deixa-se florescer a ilegalidade perversa, orientada para ações criminosas, desde as que provocam insegurança para vender segurança, até grupos de extermínio e milícias, que persistiriam em uma estrutura incompatível com a racionalidade e a complexidade da vida democrática. De olho no calendário, ele adverte: — Não tenham dúvida: os elos com o estado se aprofundarão nas eleições, só que de modo mais discreto e mediado.

Beltrame: “polícia não é milícia”.

Neste pingue-pongue doutrinário, Beltrame rebate mais uma vez o antropólogo e ex-colega: — Milícia não é sinônimo de polícia. É uma organização formada por policiais, sim, mas também por bombeiros, políticos e agentes carcerários. São entes do estado que se utilizam de seu conhecimento para funcionar, o que as torna poderosíssimas. Dizer que os salários estão na origem disso é como dizer que pobre é bandido. De resto, nos últimos 15 anos os policiais militares do Rio tiveram reajustes da ordem de 100%. Vai demorar para ganharmos a expertise necessária, mas o Rio está na frente de uma luta que em breve será de todo o país. Um dia as milícias perderão o domínio territorial, assim como o tráfico. Mas isso não resolverá tudo: só com choques de cidadania e oferecimento de serviços pelo poder público e pela iniciativa privada, as milícias perderão a razão de ser.

Fonte: Arnaldo Bloch e Chico Otávio - O Globo
Na foto (de Carlos Ivan): policiais à serviço da UPP do Salgueiro.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A função da comunicação é provocar; isso é o que os intervalos comerciais deveriam estar fazendo 



"Não sei quando começou, mas o mundo da pesquisa está perdendo sua natureza exploratória, construtivista, voltada para a identificação de possibilidades e está abraçando, cada vez mais, uma visão racionalista.

O resultado está aí para quem quiser ver. É só ligar a televisão e descobrir o quanto as decisões baseadas em pesquisas que eliminam riscos e conflitos estão gerando campanhas que refletem agendas já estabelecidas e mantêm o consumidor dentro da zona de conforto.
Só preciso de alguns minutos na frente da TV para me sentir na frente da esteira de bagagens de um aeroporto: paralisado pela mesmice de modelos de malas que se repetem continuamente e me impedem de acertar o momento de dar um passo à frente e pegar o que é meu. Tudo parece ter a mesma cara.

Todos nós temos enfrentado a necessidade de rever conceitos e abandonar modelos. Todos nós temos aprendido a mudar. Acho que agora é a vez de quem compra, de quem faz e de quem usa pesquisas.

Importa pouco se essa mudança significa rever a forma de fazer a pergunta ou de compreender a resposta. Também pouco importa se isso significa recuperar metodologias e técnicas ou desenvolver outras totalmente novas. A pesquisa precisa estar a serviço da geração de ideias e estratégias, e não no controle delas. Como diz aquela frase atribuída a Henry Ford: "Se eu tivesse perguntado ao consumidor o que ele queria, ele teria respondido -um cavalo mais rápido".

As pesquisas, que foram uma extraordinária alavanca, que fazem tanta diferença até hoje, estão, a meu ver, patinando e pasteurizando a publicidade e o marketing. E jogando centenas de milhões de dólares no ralo pelo mundo inteiro.

Colocar a pesquisa no controle significa menosprezar a importância e a contribuição positiva que decisões tomadas fora da curva, contrariando a média, têm sobre nossos negócios.

Quando resultados de pesquisa são usados como álibis dentro de nossas corporações, todo mundo perde tempo e dinheiro e tudo fica igual, morno, bege.

O ser humano é cheio de camadas e não é só racional. O ser humano mente, inclusive para si mesmo. O ser humano fala uma coisa com a boca e outra com os olhos. Um não pode ser um NÃO. Ou um naaaão! Ou não?

Não estou defendendo em absoluto que pura e simplesmente não se testem os comerciais. Isso é uma conversa infantil. Mas acredito que hoje a maioria das pesquisas como são feitas e analisadas já não basta para um mundo tão complexo. A porca ruiu.

Precisamos de novos olhares, novos métodos, novas matrizes. Precisamos buscar uma pesquisa 4.0. Afinal, tem coisas que o raio-X detecta, tem outras que só a ressonância magnética detecta e tem outras coisas que só o psicanalista detecta. As perguntas mudaram, as respostas mudaram. Então é natural que mudemos o jeito de investigar.

Eu não preciso fazer pesquisa sobre este artigo para saber que ele vai suscitar debate. Tenho tanta certeza disso que não vejo a hora de publicá-lo. A função maior da comunicação é provocar. Isso é o que os intervalos comerciais deveriam estar fazendo.

Sou redator e sou empresário. O homem de criação em mim sente o que sentem milhões de profissionais de publicidade e de marketing, nas agências e nos clientes.

As práticas de pesquisa, que foram usadas de maneira tão brilhante e inovadora por David Ogilvy e Leo Burnett, estão ficando cada vez mais a serviço da administração, quando deviam se colocar a serviço de grandes ideias.

Por outro lado, o meu lado empresário sabe que não dá para construir marcas usando apenas "feeling". Isso também não comportaria a complexidade do mundo atual.

Só dá para provocar, comover, ser memorável, com talento criativo, com sexto sentido combinado a repertório, conhecimento, aprendizado.

É por isso que precisamos de novos instrumentos, novas ciências que juntem alopatia e homeopatia. Corpo e alma. Afinal, a publicidade não vive sem alma. Afinal, ela é a alma do negócio."

NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Pinheirinhos: a verdade por trás da lei

Para conhecimento de quem ler, achei super válido repassar esse texto.
Muito bem escrito e que retrata bem a dor das pessoas de Pinheirinhos frente à uma ação desumana e inadmissível.

Não cabe mais nenhum comentário aqui, apenas leiam o texto.



Artigo do Defensor Público Wagner Giron de la Torre

Tentemos abstrair o fato de que a ocupação, por cerca de 9 mil pessoas, ao chamado bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, tenha se consolidado, há 6 anos, sobre área inerte de terras improdutivas, pertencentes a empresa falida de conhecido golpista do sistema financeiro pátrio.

Tentemos, ainda, abstrair que, em contraposição à decisão de primeira instância da justiça Estadual, ordenando a evacuação sem alternativa habitacional alguma a esse enorme contingente de pessoas pobres, pendesse uma outra, emitida pelo Tribunal Regional Federal, mandando suspender o despejo compulsório dessa comunidade.

Tentemos, por fim, nos esquecer que nestes últimos 6 anos houve tempo suficiente para que os diversos níveis de governo (federal, estadual e municipal) tentassem, com a seriedade até hoje não vislumbrada, através de diálogo franco com esses despossuídos, indicar mecanismos concretos de assentamento habitacional digno para todos. Afinal, não vivemos na tão decantada “sétima economia mundial”, emergindo num “crescimento econômico sem precedentes”.

Vamos nos ater, apenas, ao fato, incontestável, de que a maior parte desse enorme contingente de assentados urbanos é formada por pessoas amplamente vulneráveis, como mulheres, crianças , idosos. A imensa maioria de pessoas honestas e trabalhadoras.

Afastando àquelas abstrações, resta a indagação, que toda pessoa sensata pode urdir ante os absurdos perpetrados pelas forças que moveram os atos de violência caracterizadores do cumprimento da ordem de desterro: para onde vão essas milhares de pessoas indefesas? Os governos Estadual e Municipal, responsáveis pelo comando de evacuação, ofertaram alternativa habitacional decente a essas mulheres e crianças?

A resposta, como sempre, é não. Priorizando sempre a lógica do “cumprimento da lei e da ordem”, nenhum governo foi capaz de garantir o mais importante dos valores em jogo: o humano.

Há uma resolução da ONU, o Comunicado Geral nº 2, de seu Comitê Internacional pelo Direito à Moradia, que ordena a qualquer nível de governo a jamais cumprir ordens de desterro contra populações pobres quando a realização do despejo relegá-las à situação de maior vulnerabilidade e indigência.

E foi exatamente isso, mais uma vez, o que ocorreu no episódio do Pinheirinho. A reprodução de violações maciças e históricas ao Direito Humano mais fundamental, afeto ao Direito à Moradia, agregada à aniquilação do pacto federativo, quando o Judiciário paulista, chancelador da truculência militar de sempre, ignorou ordem federal que implicava na suspensão da operação bélica.

Priorizou-se, mais uma vez, a garantia de concretização de um naco de propriedade privada, amplamente discutível e de um só senhor, em detrimento aos direitos fundamentais de milhares de pessoas. Estamos falando de aproximadamente 9 mil pessoas que sequer foram notificadas com antecedência pelo comando militar do Estado sobre a concretização dessa operação truculenta, pautada à desoras, no escuro da madrugada, sem chance de diálogo com um aglomerado de seres que acreditaram num pacto federativo e confiaram que a decisão federal de suspensão do despejo massivo iria ser respeitada até decisão superior, como, aliás, mandam as regras democráticas.

Neste início de ano assistimos, sem grandes repulsas, à uma outra operação militar na chamada “Cracolândia”, enfeixada, segundo agentes governamentais, pela lógica da “dor e do sofrimento”, sempre, é claro, deferida contra pessoas miseráveis.

A solução aos graves problemas sociais, como esses, como a exclusão de milhões de pessoas aos rudimentos do Direito à Moradia não pode se dar pela lógica da dor e do sofrimento, como parece ser a regra neste Estado.

O episódio do Pinheirinho nos alerta, mais uma vez, para a necessidade de não nos resignarmos com essas sucessões de afrontas brutais ao Estado Democrático e Social de Direito, sob pena de assistirmos, impassíveis, ao triunfo da violência de Estado como solução de toda e qualquer demanda social.
A substituição do diálogo pela força bruta é inadmissível.


WAGNER GIRON DE LA TORRE, é Defensor Público no Estado de São Paulo, atuando na Defensoria Regional de Taubaté. Ganhador, em 2010, da Comenda Dom Helder Câmara de Direitos Humanos, conferida pelo Senado Federal.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Politicamento Correto está errado!

Sensacional o texto que me foi passado pelo meu namorado.

Isso num e-mail onde debatíamos o politicamente correto patético que vivemos nos dias atuais, o falso moralismo e a hipocrisia que impera.

É, simplesmente, triste ver que estamos deixando as coisas serem profundamente transformadas e alteradas em prol dessa superficialidade. Estamos transformando a cultura em prol de algo que não é ela quem deve mudar e sim nós. Querem respeito, igualdade? Ok, é direito de cada um... Mas não podemos condenar a cultura, as músicas clássicas, a história, o humor, a criatividade por isso e muito menos dessa forma. 


Segue o texto:




O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto.

Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a rosa debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".

Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha.

Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?

É Villa Lobos, caramba!

Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.

Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.

Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil.

Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.

Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias o u coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.

Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.

Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical . O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.

Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.

O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra ..... e o centroavante pereba tomar no ...., cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.

Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".

Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não.

Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.


Abraços,

Luiz Antônio Simas

(Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio).